Jovens deixam conforto do país para trabalhos voluntários em áreas de risco

Jovens que resolveram sair do conforto de casa para ir a um outro país, em comunidades em situação de risco. Essa não é a ideia mais comum de programa de férias, mas essas pessoas servem de exemplo de idealismo, inconformismo e espírito de mudança. Segundo eles, não há nada de incomum. Garantem que aprendem muito e que torna-se uma experiência para sempre.  Esse é o caso de Júlia Pinheiro, 21, estudante de psicologia, que foi para Bogotá, Colômbia, para um intercâmbio voluntário por intermédio da Aiesec, organização gerida por jovens, sem fins lucrativo e que promove intercâmbios voluntários ou profissionais. Júlia trabalhou em uma creche que cuidava dos filhos de uma comunidade carente. Inicialmente, as expectativas dela eram de fazer atividades culturais com as crianças, mas a situação não era das melhores e a estudante teve de ajudar fazendo o que pôde.

“Antes de ir eu achava que ia ajudar fazendo atividades artísticas e de sustentabilidade; chegando lá eu ajudei com o que conseguia… Fazendo atividade com as crianças, limpando o chão, dando comida, pintando as paredes.”

Para Augusto Botelho, de 20 anos, a história foi um pouco diferente, o estudante, que também fez o intercâmbio pela Aiesec, cuidou de crianças e jovens entre três e 15 anos em uma instituição localizada na Comuna 13, favela pacificada em Medellin, também na Colômbia. No local, Augusto apresentava o Brasil e fazia brincadeiras brasileiras com os pequenos, mas relata a história de um garoto que foi expulso por mau comportamento e pediu para ficar, pois era abusado pelos próprios pais. “Esse menino foi expulso, mas ele tinha que ficar lá. Ele nos contou que era abusado pela mãe e pelo pai e se não ficasse… Seria mais abusado”. A instituição não se compadeceu da situação do menino e não permitiu que ele permanecesse. “Tentamos conversar com a coordenadora do projeto, para fazer com que ele ficasse, mas eles não se responsabilizaram”.

O lugar

Júlia e Augusto viveram e trabalharam em lugares em situação de vulnerabilidade, porém houve um contraste entre as duas perspectivas. Mesmo com todos os problemas sociais em Medellin, Augusto percebeu a cidade como um ambiente de pessoas interessadas em mudar a visão negativa do lugar com uma cultura muito presente, onde se podia ouvir a sonoridade por todos os cantos. “No ônibus tinha música, no projeto tinha música, nas ruas tinham música.” Em Bogotá, Júlia presenciou as mazelas ao redor da creche e no bairro onde ficou hospedada. “Têm muitos moradores de rua, muita prostituição, muitos usuários de droga, muitas crianças sendo maltratadas… A própria instituição era muito precária.”

Dores sem fronteiras

Débora Noal, tem 37 anos, é psicóloga sanitarista e já visitou mais de 40 países em seu trabalho com emergências complexas. Ela é responsável por desenvolver estratégias de saúde mental para pessoas em situação de desastres e guerras como o terremoto do Haiti em 2010 e o início da “Primavera Árabe” na Líbia. Junto à primeira equipe de socorros, ela chega aos lugares atingidos ainda nas primeiras 24 horas e permanece no local durante, no mínimo, três meses. Desenvolve atendimentos de estabilização emocional para evitar que pessoas em situação de conflito, desastre ou epidemia venham a adquirir algum tipo de transtorno psicopatológico a médio e longo prazo. O trabalho se volta principalmente para pessoas que perderam toda a sua rede sócio afetiva, membros do corpo ou padecem de alguma doença relacionados ao desastre.

Como psicóloga do Médico Sem Fronteiras, Débora já ouviu muitas histórias, mas, para ela, duas são bastantes significativas. A primeira delas é a de uma comunidade em uma cidade na República do Congo chamada Niangara, que sofreu com um surto de ebola. A psicóloga relata o zelo das pessoas umas com as outras, havia um grande senso de coletividade  que as deixava mais unidas em uma situação de desesperança. “As pessoas morriam se esvaindo em sangue, mas se via o cuidado da comunidade, o suporte que essas pessoas tinham e ao mesmo tempo a confiança que tinham em pessoas que elas nunca viram, no caso, nós.”

Outra história que deixou em Débora uma cicatriz, como ela mesmo afirma, foi a de uma congolesa que chegou a ela pedindo que a ajudasse a “esquecer”. Mãe de nove crianças, esta mulher teve o marido assassinado e viu a própria filha, de apenas dois anos, com o corpo em chamas. Apesar dos choques, ainda tinha seus oito filhos, com quem fugiu para a floresta após a morte do marido. Refugiou-se na selva durante dias e quando chegou à Débora, sua situação era ainda pior. “Quando ela me encontrou, já fazia algumas semanas que ela corria fugindo na floresta com os filhos e foi me contando que perdeu um a um. Ela só tinha um bebê, que tinha amarrado na cintura e era a última possibilidade de se ver mãe, de perceber que ela tinha uma família.”

Estar em situação de conflito e ser psicóloga, é também compartilhar do sentimento de pânico de seus pacientes. O risco era eminente e Débora sentiu na pele o que era estar vulnerável. “Teve uma situação, num lugar bem próximo ao Sudão do Sul e um dia eu recebi um comunicado da comunidade dizendo que provavelmente naquela noite nós seríamos atacados, nesse dia eu passei horas e horas e horas esperando o ataque, esperando o momento em que eu seria violentada e que as pessoas da minha equipe sofreriam algum tipo de violência, foi bastante ansiogênico.”

Por Yoneila dos Santos

Com supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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