Caminhoneiros sexagenários explicam por quê continuam nas estradas

Seu Bené ao lado do caminhão do amigo Saulo

As rugas no rosto, o cabelo branco e curto, tapado por um boné marrom, evidenciam traços herdados pelas trajetórias nas rodovias brasileiras. Caminhoneiro aposentado, mas “sempre na estrada”, Antônio Benedito Azevedo Selmo, de 65 anos, o “Seu Bené”, tem oito filhos. Quatro deles herdaram a profissão do pai nascido em Sobral e hoje morador de Tianguá, ambos municípios do Ceará. Na última semana de maio, depois de entregar a carga, passou por mais uma aventura na carreira de 45 anos: viu-se impedido de seguir viagem para o Nordeste por causa da greve da categoria em todo o país. Ele também acha que o diesel ficou caro, mas queria mesmo era estar em casa. Só mais uma das aventuras de um homem que se acostumou a ouvir mais o som do caminhão do que ficar em casa. O tempo passa, a estrada o espera.

Ele conta que desde criança observava atentamente os caminhões que passavam por sua cidade e imaginava como seria viajar pelo país dentro dos grandes veículos de carga.

“Sempre sonhei em ser caminhoneiro e sempre dei muito valor à profissão.”

O ronco do motor, a cabine solitária, o rádio na estação local, o vento contra as janelas e as rodas que gastam e frenam no asfalto, na terra ou na brita são a alegria de quem prefere a estrada aos dias sem movimento, monótonos.

Sonho de infância

Aos 15 anos, “Seu Bené” começou a trabalhar em uma fazenda no Ceará, fazendo todo tipo de serviço. Naquele ambiente, havia o trabalho dos tratores para arar e colher da terra. Logo viu a oportunidade para começar a ter intimidade com as grandes máquinas e virou tratorista, aos 20 anos. Pouco depois Seu Bené passou a rodar como caminhoneiro nas estradas do país. Produtos agrícolas como milho e soja eram a especialidade do transportador. Em suas viagens, passou 35 anos trabalhando para uma transportadora cearense para levar produtos de granja para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste na maioria das vezes. Nas viagens, sempre mantém a confiança na Virgem Maria.

“Temos que ter fé, não dá pra viajar sem”

Do campo para o trator, do trator para o caminhão. 45 anos formam uma estrada de curvas sinuosas e de sol no semblante. A vida dele não é uma estrada esburacada como as que ele já passou. Apesar da grande quantidade de problemas nas estradas, “Seu Bené” vê os trajetos das rodovias no Brasil com otimismo. Segundo ele, a pressão feita pela classe e por outros motoristas é fundamental para que as melhorias se concretizem.

Atenção

O principal problema pontuado por ele é a imprudência por parte dos companheiros de profissão e de outros motoristas. “Ah, é tudo muito apressado, sem paciência. Querem cumprir demandas o mais rápido possível para conseguirem um outro trabalho logo”. A imprudência foi a causa do único acidente que sofreu na trajetória. Em 13 de setembro de 2012, no Piauí, um caminhoneiro que dirigia bêbado, jogava o caminhão de um lado para o outro atrás dele. Quando “Seu Bené” tomou consciência da situação, o outro veículo estava ao lado dele e não havia mais nada que se pudesse fazer. O outro caminhão encostou na lateral do modelo FH12 que costumava dirigir, deixando-o sem controle e o empurrando para o acostamento. Ele desceu por uma vala e parou poucos metros depois, mas o caminhão não virou.

O outro motorista também perdeu o controle e foi para a vala. Com a mesma sorte de seu Bené, não teve o caminhão tombado. Os dois tiveram ferimentos leves e tudo foi devidamente acertado, sem grandes preocupações. O motorista pagou pelo prejuízo e seguiu viagem após terem as pendências resolvidas.

Segundo o último balanço da Polícia Rodoviária Federal, de 2017, o número de acidentes nas estradas diminuiu com relação ao ano anterior. No entanto, apesar da queda de sinistros, a proporção para feridos e mortos nas rodovias se manteve praticamente a mesma. Ao todo foram 89.318 acidentes registrados, aproximadamente 244 por dia. Entre feridos e mortos, os casos ultrapassam 90 mil. Confira infográfico:

Problemas

Os recentes protestos feitos pelos caminhoneiros no Brasil mostraram o poder que esses trabalhadores têm. Os problemas vão além dos preços do óleo diesel e dos preços do frete. Rodovias sem estrutura e falta de sinalização são outras reclamações colocadas por caminhoneiros em protestos. Mais de 60% dos transportes no Brasil são feitos por meio das rodovias interestaduais, que juntas somam cerca de 1.720.643 km, mas apenas 12,2% da rede viária do país é pavimentada segundo último estuda da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), em 2015. Confira infográfico sobre a evolução das malhas rodoviárias pavimentadas:

De acordo com o último anuário dos transportes da CNT, de 2017, num panorama geral, 61,8% das rodovias estão entre as condições regular, ruim e péssima. Das rodovias analisadas, mais de 80% estão sob posse do Estado.

Sonolência

Constantes viagens, a necessidade de apresentar resultados para cumprir metas e ajudar a sustentar as famílias, fazem com que caminhoneiros mantenham rotinas não saudáveis. “Seu” Bené diz que tem colegas que ultrapassam o limite de tempo estabelecido. Eles estão impedidos por lei de rodar por mais de oito horas, estendíveis a outras duas, caso necessário. E se arriscam: alguns chegam a dirigir por 48 horas ininterruptas. Naturalmente, jornadas tão extensas não são possíveis, e é aí que entram os medicamentos estimulantes.

O mais comum é o rebite, comprimido que tem como princípio ativo a anfetamina. A substância estimula o cérebro e o mantém ativo por mais quatro, seis ou oito horas a depender de pessoa para pessoa. Entre os efeitos colaterais estão a falta de apetite e de sede. Também pode levar a ataques cardíacos pela dependendo da quantidade de estimulantes tomados.

“O pessoal costuma usar bastante, mas a polícia não pode pegar não”

Saudades de casa

Todas as viagens deixam lembranças, mas nenhuma delas supera as que vêm de casa. Apesar de nunca passar mais de dois meses fora, a saudade é uma constante nas viagens que realiza pelo Brasil. A família que mora no Ceará e a cidade que deixa para trás sussurram memórias na mente antes de dormir. Por vezes, quando os filhos ainda eram menores, os levava dentro do caminhão e transmitia a alegria de dirigir nos caminhos do país.

Mesmo aposentado, não pretende parar de viajar pelo país. Constantemente aproveita viagens de amigos e conhecidos caminhoneiros para matar a saudade das rodovias. Desta vez, pegou carona com o amigo e colega de profissão Saulo.

“Caminhão é igual droga: você vicia nas estradas”.

 

Contudo, não são todos os caminhoneiros que se intitulam apaixonados pela profissão. O ex-motorista de caminhão, Antônio Luiz Migoto, 65, gaúcho com o sotaque acentuado, explica que a profissão no Brasil está longe de ser um sonho a realizar. Confira vídeo:

Por Vitor Mendonça

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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