Os juízes e os condenados, um contraste bem brasileiro

De um lado, aqueles que recebem auxílio-moradia e, de outro, aqueles que lutam por um palmo de chão. De um lado, aqueles que recebem auxílio-livro e, de outro, aqueles que dormem sobre papelão. De um lado, aqueles que recebem auxílio-alimentação e, de outro, aqueles que comem o resto do lixão. Brasília pode ser vista como a síntese da injustiça de um país que separa os cidadãos por muros, por paredes de concreto (e até por madeirite). Na capital e em todo o país, benefícios no contracheque contrastam com vazios de cidadania e desrespeito à Constituição à luz do dia ou à sombra da noite com tetos de plásticos rasgados. Uma história de diferenças que permanece sob a marca do silêncio e da indiferença que perdura no tempo e parece não ter fim. 

Na cidade dos contrastes, aquele era um dia de comoção nacional. Os gritos de “presente” ecoavam nas ruas e estampavam as capas dos principais jornais do Brasil. Na noite anterior, Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro e militante dos direitos humanos, tinha sido brutalmente executada na “Cidade Maravilhosa”. Protestos se propagavam no país inteiro. Mas outra notícia, que ficou em segundo plano, também virou manchete naquele 15 de março de 2018 marcado por uma paralisação que afetou Brasília e 17 Estados. Uma parcela de juízes tirou o dia para protestar contra a decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia. A ministra tinha agendado, para a semana subsequente (dia 22 de março), a votação sobre o auxílio-moradia, no valor de R$ 4,3 mil. No entanto, os trajes formais e as gravatas das mais diferentes cores contrastavam com as profundas desigualdades existentes bem perto dali. Se membros do Judiciário que gozam de rendimentos próximos ao teto remuneratório constitucional (de R$ 33,7 mil), passaram a lutar por um aumento salarial e por valores adjacentes, existem vizinhos, na capital do contraste, condenados a viver na periferia social.

A oito quilômetros da simbólica Praça dos Três Poderes, no coração de Brasília, e dos pedidos de benevolência do Judiciário, um grupo de quatro homens, que nunca foi manchete em lugar algum, tentava construir uma proteção contra as rajadas de chuvas em meio ao cerrado seco. Era um plástico transparente rasgado, encontrado na rua, deixado lá, segundo Carlos*, por “Deus”.

Ao mesmo tempo que evocam a divindade, sabem que o apego à crença religiosa não elimina a situação de abandono e esquecimento da sociedade. Cego de um olho, o pai de sete filhos se aproxima da velhice em uma realidade mais cruel. A desigualdade impede que o sonho do próprio lar, cada vez mais distante, se concretize. Hoje, os quatro se ajudam para tentar sobreviver à condição de moradores de rua em meio a um conjunto de objetos aleatórios. O fogo baixo, acendido com pequenos gravetos, logo se apaga. Acabou o almoço, disse João*, o encarregado, no dia, por lavar as roupas num pequeno balde encontrado na rua. As 13 batatas fritas, entregues por uma senhora que passeava com o neto na praça em frente, serviram para robustecer a janta. Naquele dia, o Lago Paranoá forneceu o resto: dois peixes pequenos.

 

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Por: Lucas Valença

Arte: Camila Campos

Site produzido por: Vitor Mendonça e Lucas Valença

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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