Novo tom de vida: surdos e intérpretes relatam impacto da música nas próprias vidas

Waldenildo Alves participa do grupo Expressando Louvor Surdos. Foto: Reprodução/Facebook.

“Levanta a mão pro alto e sente a vibe agora, levanta a mão pro alto e faz um V de vitória!” (Ronaldinho Gaúcho, Jhama e Pablo Luiz, 2016)

 

“Cada um aqui sabe a salvação da música”, essas são as palavras da elaboradora do projeto “Surdodum”, Ana Lúcia Soares, 43, que, em 1994, começou a procurar surdos em escolas de Brasília para compor o grupo de música. A intérprete afirma que o projeto é conhecido por ser a maior banda com surdos, pois são seis músicos surdos, cinco ouvintes e um cadeirante, também ouvinte. Fernando da Silva,36, é surdo moderado e é um dos pioneiros do projeto. Através do “Surdodum”, ele conheceu a praia e viajou de avião pela primeira vez.

 

Confira abaixo o relato de Fernando Silva:

 

Os ensaios da banda acontecem todas às segundas-feiras na quadra 207, na Asa Norte, no subsolo do bloco A. Os gêneros das músicas são os mais variados, como samba duro, reggae, salsa, funk, entre outros. Célio Roberto, outro integrante surdo da banda veio do Piauí e se identificou bastante com o “Surdodum”, já que o estudo de Libras era pouco desenvolvido na região em que morava e hoje ele tem mais oportunidades de expandir seu trabalho e sentir mais realizado.

Ana Soares diz que é muito difícil viver da arte, ainda mais quando se trata do trabalho com arte inclusiva, pois muitas vezes as pessoas não acreditam no potencial dos surdos, razão pela qual ela só comenta da surdez dos componentes, após as apresentações serem realizadas. “É preciso provar sempre o potencial dos meninos”.

A banda já participou de apresentações, sempre confere editais e também é convidada para mostrar o talento em muitos lugares. Já ganhou uma moção em Portugal, além de já se apresentar em São Paulo, Goiânia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Participou em 2006 da segunda posse do ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi a banda ganhadora do quadro Pistolão no Domingão do Faustão e apresentou-se em 2009 na TV Xuxa.

 

Em 2005, quando a filha de Ana tinha apenas oito dias de nascida, a escola Centro de Ensino Especial na 912 sul onde os instrumentos da banda ficavam, foi furtada. Segundo Ana, tudo foi levado, exceto os instrumentos, mas o ocorrido fortaleceu o grupo. “Embora tenha acontecido isso, tenha dado vontade até de parar mesmo, mas foi só passar um pouquinho mais, a gente tava ensaiando embaixo de árvore, na casa de amigo e tudo, hoje em dia a gente tem que agradecer mesmo porque a gente tem um espacinho pago com muita dificuldade, mas pelo o menos é um espaço nosso para estar fortalecendo mais a questão da música e da surdez”. Em todo este tempo, a banda sempre se manteve sem a ajuda de terceiros. Agora, Ana diz que deseja levar o “Surdodum” para os quatro cantos do mundo, além de ser conhecido nacionalmente.

Para acompanhar a banda é só seguir a página no Facebook: Surdodum ou pelo site https://bandasurdodum.blogspot.com.br/.

 

Waldenildo Alves, 48 anos, é surdo profundo e se encontrou com a música quando tinha oito anos de idade. Hoje, ele se apresenta em várias cidades brasileiras a fim de mostrar seu talento e seguir seu sonho.

Confira abaixo a entrevista:

 

CEEDV apoia a arte na grade interdisciplinar

O Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais é uma escola pública situada na 612 sul, com 35 anos de existência. Ela recebe desde bebês até idosos cegos congênitos e aqueles que adquiriram com o tempo. A grade do atendimento curricular específico engloba ensino da letra cursiva, educação visual, soroban (ensino de matemática por meio do objeto) e na grade interdisciplinar particular tem artes cênicas, educação física e artes visuais. Segundo a coordenadora, Silvia Pinheiro, o cego congênito necessita aprender utilizar os sentidos remanescentes, já o cego com cegueira adquirida tem uma “vantagem” pois já tem um mapa mental e memória visual de algumas coisas.

José da Guia e José Aurélio utilizam o espaço para passar o tempo. Foto: Rayssa Brito.

A biblioteca da instituição trabalha com voluntários. Eles leem para os deficientes visuais ou até gravam em áudio no chamado “Clube do Ledor”. Na parte psicológica dos estudantes também há dois voluntários que ajudam os alunos, principalmente os mais idosos com cegueira adquirida, pois precisam se readaptar à uma vida diferente. Para atuar na área como professor, é necessário ter braile e soroban como pré-requisitos.

José da Guia Silva, 53 anos é cego, está na escola há três anos, ele aprende na CEEDV artes visuais. artes cênicas, informática, braile, educação física e música. Na escola ele aprende violão e piano e embora goste mais do primeiro, tem muita dificuldade para tocar.  José Aurélio, 52 anos, estuda natação e educação física e está sete anos na escola, ele afirma que o Governo não ajuda a instituição como deveria.  “Na verdade, se dependesse do Governo aqui já tinha fechado”.

Elizimary Barbosa mostra o soroban. Foto: Rayssa Brito

Elizimary Barbosa Nunes, 39 anos é cega parcial e está há oito anos no CEEDV. Ela conta que na escola aprendeu braile, música, soroban e principalmente a auto aceitação. “Tem coisas que eu reclamava antes, que hoje eu não reclamo mais, hoje eu só faço é agradecer”. Ela consegue ler apenas letras ampliadas e em negrito, segundo ela, a família não ajuda e é independente, pois faz os afazeres domésticos sozinha. Ela frequenta o espaço quarta e quinta à tarde.

 

 

 

 

Para mais informações acesse aqui para conferir alguns Centros de Ensinos Especiais.

Caso haja interesse em matricular um aluno em um dos Centros de Ensino Especial do DF, é preciso procurar um dos CEE ou as Coordenações Regionais de Ensino com laudo/relatório médico e documentos do aluno, para que ele seja avaliado pelo serviço de apoio e mostre a melhor alternativa especializada para cada caso.

 

Por Rayssa Brito

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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