Jovens que sofreram abuso sexual na infância explicam impacto da violência; “sinto nojo de mim”, diz vítima

Violência em casa: maior número de casos acontece em ambiente familiar. Arte produzida e cedida para esta reportagem por Amanda Morais

Trecho da entrevista como o assistente social Vicente Faleiros, que conta a importância de os pais monitorarem as redes sociais e acessos das crianças na internet. 

“Ele disse ‘eu tenho um brinquedo, vem aqui, vou mostrar pra você’. Ele disse: esse é o nosso segredo, e ninguém mais precisa saber”. O trecho é da música “Pedofilia” do grupo Titãs (2014), mas poderia ser parte do depoimento de uma das 1.994 crianças brasilienses cujas histórias foram denunciadas no Disque 100, em 2017.  Ceilândia (15,9% dos casos), Taguatinga (7,67%) e Samambaia (7,22%), regiões administrativas vizinhas entre si, são as que mais prestaram queixa ao Ministério dos Direitos Humanos do Distrito Federal (MDF/ DF), pelo telefone para denúncia. Sudoeste e Candangolândia, quando levado em conta a porcentagem de ligações, 0,45% e 0,55% (respectivamente), são as menos violentas.

A ideia de que o perigo mora apenas na rua, no escuro da noite ou na vizinhança não é a mais correta. No DF, 36,26% dos abusos ocorrem na casa da própria vítima, de acordo com o levantamento e, segundo o balanço do Centro de Referência para Proteção Integral da Criança e do Adolescente em Situação de Violência Sexual (CEREVS), 79,55% dos casos de violência sexual infantil são dentro da própria familía, por parte dos pais, irmãos, primos, tios, avós, mas principalmente dos padrastros, com 33,72% desse total.

Esse foi o caso da estudante Anna*. Hoje, aos 19 anos, ela recorda que, durante a infância, dos seis aos 11 anos de idade, foi abusada pelo próprio padrinho quando fazia visitas familiares à casa dele e da madrinha, pessoas com quem ela ainda mantém contato. O agressor aproveitava dos momentos em que ela tomava banho para “ficar olhando”. “Às vezes, até perguntava se eu estava sentindo alguma mudança no meu corpo. Quando ia me abraçar, passava a mão por mim”, lamenta a jovem.

“Não sou eu mais em mim, não sou eu mais. Sou só nojo de mim. Só nojo, por dentro” (Titãs, 2014)

Anna, que só comentou o assunto para as duas irmãs mais velhas e desabafou para algumas amigas sobre a situação, não fez tratamento psicológico. “Sei que deveria ter feito, até porque o ocorrido tem muito reflexo na minha vida adulta. É necessário fazer”. Dentre os traumas, ela relata que tem dificuldade, por exemplo, em se sentir bem sem roupa e se relacionar sexualmente. “Sinto até nojo de mim”.

Para Daniele*, os reflexos tiveram impacto que a levou a outras situações de risco.  Hoje, aos 27 anos, ela vive como youtuber. Mas, aos 17, chegou a ser garota de programa devido às deturpações psicológicas causadas pelos abusos cometidos pelo padrasto, quando tinha apenas sete anos de idade. Moradora da cidade de São Paulo, onde ocorreu o maior número de denúncias no país (17,26%) pelo Disque 100 em 2017,  segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos. “Pra mim sexo era sexo como de cachorros, que transam na rua.”

“Vem aqui, vamos nos conhecer. Vem aqui, fica aqui do meu lado, no escuro. Eu prometo cuidar de você”

Daniele explica como o padrasto traiu a confiança da mãe dela. “Minha mãe conheceu ele em uma festa e chamou pra morar junto. Vivíamos juntas em uma casinha pequena, no fundo da casa de minha avó. Nós dormíamos no mesmo quarto e na mesma cama todos juntos”. Era com a saída da mãe para o trabalho que a pequena ficava “a sós” com o pedófilo, que aproveitava dos cobertores para cometer os abusos sexuais. “Ele abaixava as minhas calças, me tocava, pegava o pênis e esfregava na minha vagina. No começo, quando eu acordava, ele fingia que nada tinha acontecido. Com o tempo passou a ficar mais audacioso, foi quando tentou penetrar em mim, mas eu gritava e ele parava. Os abusos foram muitos. Ele pegava a minha mãozinha para masturbar o pênis dele, fazia eu dar beijos e se tocava em cima da minha bunda”, relembra.

“A minha família não prestou queixa na polícia. Esse homem pegou as coisas dele e fugiu para outra cidade e eu não fiz tratamento psicológico”, lamenta. A falta de conversa e as proibições por parte da mãe em tocar no assunto fizeram com que Daniele crescesse uma criança rebelde, segundo ela analisa. Ela explica que se tornou uma adolescente viciada em masturbação, drogas e infiel nos relacionamentos. Ela diz que parou de acreditar na figura masculina e passou a ter revolta por si mesma.

Efeitos

De acordo com o assistente social Vicente Faleiros, 77, a cultura de respeito e o diálogo são a melhor forma de combater os abusos sexuais infantis. Mas, se já ocorreu, o profissional aponta a procura pela justiça, acompanhamento psicológico e comunicação familiar como fatores que podem reduzir o trauma. “Se o trauma fica reprimido, a pessoa pode ter uma sexualidade perturbada, principalmente a relação sexual normal afetiva e também a realização de outros projetos”.

Além do trauma em si, o assistente social afirma que outro comportamento comum apresentado pelas vítimas é o sentimento de ameaça “correspondendo ao domínio de um abusador, que em geral é masculino, mais velho e próximo da criança”. Medo de se relacionar com o próximo, atitudes de segredo, perda de interesse pelo estudo, falta de concentração e, dependendo do abuso, comportamento sexual ativado ou excitado, são outros reflexos que segundo Vicente, são causados pelo assédio e motivo de alerta aos pais.

“Nós somos a palavra encarnada. A medida que se conversa, se adquire um vínculo de confiança. Essa relação de fala é fundamental para que ela (criança) se abra sobre tudo aquilo que incomoda”, ensina o também doutor em sociologia.

No disque denúncia, onde trabalhou, Vicente relembra a forma como uma criança de cinco anos se abriu: “dizia ‘meu pai é um monstro’, porque ele estava tocando nas partes genitais e ele precisava falar. Às vezes o adulto não dá abertura para a criança se expressar”.

Por Giovana Marques

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *