Diretora de “O processo” diz que não quis criar polêmica, mas que faltava visão da esquerda

O documentário “O processo”, dirigido por  Maria Augusta Ramos, será lançado no dia 17 de maio nos cinemas nacionais e promete mais polêmica no caso do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Não que essa seja a intenção da cineasta: segundo Maria Augusta, a intenção não foi causar polêmica ou aumentar a polarização no país. “Eu espero que esse filme contribua para que possamos voltar como nação a dialogar e sair dessa fase que não é construtiva, mas pelo contrário é muito mais destrutiva para os dois pólos”, afirma.


A diretora decidiu filmar o documentário oito dias antes de acontecer a primeira votação do processo. A proposta foi fazer um  documentário observativo, que não contém entrevistas. Sobre as filmagens dos bastidores do processo de impeachment que mudou os rumos do Brasil, a documentarista afirma “Foi um processo de descoberta como todo filme para mim é, um produto de filmagem, um processo cinematográfico de edição que envolve outras pessoas; diretor de fotografia, o câmera, o som… é um processo conjunto com todos focados na proposta de fazer um filme que leve o público a refletir sobre o momento em que nós vivemos.”


O filme de 137 minutos resume 450 horas de material filmado durante quase dois meses. A documentarista, que já produziu três obras sobre o universo do judiciário, conta que a vontade de retratar o processo veio do desejo de entender o que o país estava passando. “Naquele momento eu vi um país partido e polarizado, uma presidente em vias de ser afastada e eu não pude deixar de ir a Brasília, que é onde eu nasci e cresci, para retratar esse processo nas suas diversas facetas, nas várias e possíveis narrativas.”.

Maria Augusta Ramos conta que não conhecia pessoalmente nenhuma das pessoas envolvidas no processo de impeachment. Ela ressalta que a confiança que obteve dos parlamentares e advogados foi importante para as filmagens, pois tanto a defesa quanto a acusação foram apresentadas: “Em nenhum momento teve alguma cobrança de que as pessoas teriam que ver e aprovar nada porque se houvesse essa cobrança eu não teria realizado o filme. É um filme completamente independente, eu tenho compromisso com a ética, com a verdade da minha experiência.”

Sobre as aparições mais constantes das pessoas contra o processo de impeachment, a autora se defende: “Os senadores que eram a favor do impeachment não me possibilitaram ter o mesmo acesso às reuniões que eu tive com a defesa da presidenta, mas eles não me dificultaram filmar, não houve nenhum tipo de boicote. Eles simplesmente não me deram o acesso mais íntimo.”

O filme vem para encher uma lacuna importante, que é a visão da esquerda nesse processo todo, mas mesmo que venha uma maior proeminência da defesa da presidenta Dilma eu acho que os argumentos da direita são absolutamente contemplados com muito respeito e com muita dignidade. Esse não é um filme panfletário, de maneira alguma”, enfatiza

 

 

Análise

Para a história do Brasil,  “O processo” pode ser um documento valioso e por isso vale ressaltar alguns pontos exibidos no filme.

As reuniões em que os defensores da ex-presidenta discutem o processo pelo qual ela está passando são exibidas, a senadora Gleise Hoffman e o advogado José Eduardo Cardozo ganham destaque na trama, mas Dilma é onipresente durante todo o tempo.

Os momentos da votação na Câmara  mais marcantes são ressaltados no documentário, como por exemplo, quando o presidenciável Jair Bolsonaro exalta  a figura do falecido coronel Brilhante Ustra.

As críticas ao processo são apresentadas em quase todos os momentos do documentário pelos discursos dos senadores, deputados e do advogado da ex-presidenta. E, ao final, o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, faz uma autocrítica aos governos do PT (Partido dos Trabalhadores). “Facilitamos a estrada deles [os opositores] através de erros graves,vocês não sabe o quanto era difícil fazer um ministro do PT receber os movimentos sociais[…].”

A diretora Maria Augusta acredita que é importante a autocrítica: “Acho que no filme a esquerda faz uma reavaliação que é essencial, que houveram erros sim e para que a gente possa evoluir, progredir e sair desse impasse que a gente tá vivendo. Para que possamos crescer, evoluir, a gente tem que fazer uma avaliação e o filme mostra isso, é importante.”

Mas José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma no processo, defende que isso é necessário, mas não agora. “Não há condições neste momento. Lula está preso. Não é hora para você ficar numa sala fazendo reflexões quando é necessário uma energia social para que o Brasil não tenha um retrocesso social ainda maior do que já teve”. E continua. “eu acredito que em um momento oportuno o PT fará essa autocrítica e revisará eventuais erros, até para reafirmar seus acertos”, explicou o ex-ministro.

Por Marília Sena com colaboração de Lucas Valença

Arte por Larissa Lustoza

Sob supervisão de Katrine Boaventura e Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Agencia de Noticias Uniceub

Professores e estudantes do curso de jornalismo construindo um projeto de extensão para promover práticas e repensar rotinas de produção

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