Festival – Documentário “Martírio” é filme urgente contra genocídio de indígenas, diz diretor

Definido pelo diretor Vincent Carelli como “cinema de guerrilha”, “Martírio” estreou no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro sob aplausos. Pela defesa dos direitos territoriais indígenas de todo o Brasil, Carelli usa como estratégia a narração em off para ilustrar a dor de famílias que estão à mercê do “lobby ruralista” e do governo, que não as enxerga. O diretor explica a dificuldade de aceitação no meio cinematográfico, por causa do tema, além do surgimento do interesse pela temática indígena. Carelli é nascido em Paris, mas cresceu no Brasil. Atualmente, mora em Olinda (PE). Para ele, o filme é de urgência diante do genocídio dos indígenas principalmente no Norte e Nordeste do país.

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Confira mais sobre a produção de “Martírio” na entrevista com o diretor Vincent Carelli.

A mostra do documentário, na quinta-feira (22), foi recebida por indígenas de tribos do Amapá, Acre, Amazonas, Roraima, Mato Grosso e Maranhão (das tribos dessana, macuxi, wapixana, wayampi, suiá, juruna, gavião, mayoruna, huni kuin, tucano). Segundo a assessora da Secretaria executiva da Rede de Cooperação Amazônica, Patrícia Zupi, os indígenas estão em Brasília para “uma oficina de cartografia, indígena e etno mapeamento”. A Rede de Cooperação Amazônica é uma organização que reúne três organizações indígenas e indigenistas da Amazônia. 

O senhor vê dificuldade em distribuição  no Brasil? O fato da temática do filme ser indígena influencia em alguma coisa?

martirioÉ claro, influencia, tanto é que a gente tem recebido prêmio em festivais como de Gramado. Os próprios jornalistas comentam que parte da classe questiona que esse filme de índio deveria estar em outro lugar, não devia estar em Gramado. Então tem isso. Esse filme não é um cinema de entretenimento, é um cinema de guerrilha. É difícil de romper, nossa meta sempre é essa, nada de gueto, de botar os índios no armário do cinema etnográfico.

O senhor pretende distribuir o filme nos cinemas?

Não, porque acho uma bobagem, é um investimento grande, às vezes você está pagando para as pessoas verem.  Eu acho que a televisão é mais importante nesses casos. Festival é bom para promover o filme, para tornar conhecido. Agora cinema, se você for ver o custo do investimento por ingresso, você faz 2mil, 5mil pessoas assistindo. Na televisão, você alcança 200 mil, 300 mil, muitas projeções. Objetivamente eu penso mais nisso. Eu acho que a gente vai fazer desse filme uma série, ele desmembrado, como ele é um filme de 160 minutos, ele merece capítulos.

Como surgiu essa vontade de fazer um filme sobre o universo indígena?

É porque minha vida é ligada ao universo indígena. Meu cinema vem da minha relação com os índios. Então esse é o universo que eu trabalho. Parece, para quem vê de fora, que é monotemático. Mas não! Os índios são um universo de temas, então cada um dá a contribuição na área que você tem competência, mundos que você conhece. Eu até fiz outras coisas, sobre camponês, sobre artista plástico, mas o meu universo é esse.

O diretor Vincent Carelli e Tonico Benites, indígena que participou da produção de "Martírio". Foto: Nabil Sami
O diretor Vincent Carelli e Tonico Benites, indígena que participou da produção de “Martírio”, discursam antes da exibição do filme no festival. Foto: Nabil Sami

E qual é a mensagem a ser passada com esse filme?

Esse é um cinema de urgência. Tem um genocídio ocorrendo há mais de 30 anos, que está se agravando porque ninguém resolve coisíssima nenhuma e os índios não estão a fim de abrir mão de retomar as suas áreas, que é uma porção ínfima do que eles teriam direito. O martírio é isso, nós não temos dinheiro para comprar as nossas terras, mas temos o nosso sangue, para derramar por elas. Isso é um discurso que está no filme. Essa é a própria definição do martírio.

Para terminar, resuma em uma frase o que o filme tem de mais brasileiro.

Ele é um retrato do país. Nós temos o mundo indígena, o mundo do senado federal e o congresso nacional.

Por Bruna Maury e Nabil Sami

Post Author: Editor Agencia CEUB