73 anos de paz: confira as consequências no Brasil da 2ª Guerra Mundial

Entre os anos de 1942 e 1945, o Brasil permaneceu oficialmente em estado de guerra.  Mais de 25 mil militares do Exército e 350 da Aeronáutica (sendo 43 pilotos) foram treinados e enviados para lutar na Itália. A Marinha realizava um esforço conjunto com a Força Aérea para garantir a proteção do Atlântico Sul. Mas os impactos da Segunda Guerra Mundial não foram sentidos apenas pelos militares: toda a população civil esteve envolvida no esforço de guerra, e as consequências disso foram sentidas mesmo depois do conflito acabar. Segundo o historiador Frederico Tomé, a guerra trouxe diferentes impactos para o país, inclusive de industrialização.

Rendição da 148º Divisão de Infantaria alemã para a Força Expedicionária Brasileira na campanha da Itália. Acervo do Quartel General do Exército. Foto por Lucas Neiva.

O Brasil na era do aço

Um dos primeiros e mais importantes impactos da Segunda Guerra Mundial para o Brasil foram as mudanças que o conflito trouxe para a economia brasileira. Foi uma guerra de enormes proporções, talvez com a maior mortalidade de todos os tempos em um curto espaço de tempo. Isso trouxe impactos duradouros e marcantes na economia”, afirma Tomé.

O historiador explica que o Brasil vivia desde 1930 um projeto desenvolvimentista voltado para a industrialização. Esse projeto foi logo comprometido pela guerra ao tirar parte do poder de barganha do Brasil com outras nações. “Antes, o Brasil negociava livremente com os Estados Unidos e com a Alemanha para executar seus projetos. Mas as diversas pressões internas e externas puseram o Brasil em alinhamento quase que exclusivo com os norte-americanos, tirando de certa forma sua capacidade de barganha”.

Mas se na economia externa o impacto foi negativo, no cenário interno a guerra serviu para acelerar o processo de industrialização. “A Segunda Guerra Mundial vai exigir do Brasil um esforço de guerra que de certa forma foi benéfico para a sua economia”. Tomé explica que o Brasil passou a precisar manufaturar por conta própria diversos produtos que antes eram importados e que a guerra impedia de chegar. Além disso, o alinhamento com os Estados Unidos resultou na criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que possibilitou ao Brasil construir a infraestrutura necessária para a expansão do seu parque industrial.

O comércio brasileiro também se beneficiou da guerra. “O Brasil conseguiu, no prazo da guerra, um superávit comercial considerável por conta das demandas de produtos bélicos e de outros produtos necessários para a guerra”. A alta demanda pela exportação de mercadorias nacionais em um ambiente que não era tão atingido pela guerra quanto nos países europeus favoreceu muito o projeto de industrialização do Brasil que já acontecia desde a década de 1930.

A volta da democracia

A popularidade de Getúlio Vargas foi profundamente afetada pela guerra, o que resultou em mudanças profundas na política nacional. Frederico Tomé afirma que a guerra revelou uma contradição em seu governo, que enviava milhares de soldados para enfrentar ditaduras totalitárias na Europa enquanto realizava no Brasil as mesmas práticas desses regimes, desempenhando o mesmo papel de um ditador.

“A guerra revelou a inviabilidade do regime que se mantinha por aqui”. Com o fim da guerra, os militares forçaram a renúncia do presidente Getúlio Vargas, o que resultou na abertura política que durou de 1945 até 1964. “As demandas e contingências da guerra envolveram politicamente diversos setores da economia e da sociedade brasileira, aumentando a exigência por uma democratização conforme o Brasil ficava mais envolvido com o conflito”.

Mas a Segunda Guerra Mundial teve por consequência um evento nada benéfico para a política externa brasileira: a guerra fria. “A guerra fria dividiu o mundo em dois extremos: um socialista e um capitalista. Para a América Ibérica, o alinhamento com os Estados Unidos foi automático mas sem que chegassem benesses econômicas”. A guerra fria fez com que o Brasil perdesse parte do seu potencial de negociação sem receber nenhum investimento em troca, ao contrário do que aconteceu com os países europeus.

Forças armadas modernas e profissionais

Um efeito notável da 2ª Guerra Mundial para a realidade brasileira foram as mudanças provocadas nas Forças Armadas, que passaram por um processo de modernização e de profissionalização que é sentido até hoje.

“Desde a Guerra do Paraguai (1864-1870) que o Exército passou por um período de sucessivas tentativas de modernização, mas sem muita ordem e sem muita hierarquia, sem conseguir abrir mão de muitas práticas do período imperial e até mesmo colonial. Mas na segunda guerra mundial isso muda de figura.”

O historiador afirma que a Segunda Guerra Mundial possibilitou a institucionalização do Exército. O Exército se tornou uma unidade mais coesa, contando com lideranças mais fortes e menos (e menores) conflitos internos (principalmente ao manter sob controle os grupos tenentistas). A força terrestre passou a contar com uma voz de comando única, que há muito tempo não era vista. Essa profissionalização e unificação do Exército foi muito benéfica no ponto de vista de Tomé.

A Aeronáutica também sofreu mudanças profundas com a guerra, sendo praticamente fruto desta. A Força Aérea Brasileira foi criada em 1941, apenas um ano antes do Brasil declarar guerra. O conflito também proporcionou uma modernização do seu equipamento e a criação do seu 1º Grupo de Aviação de Caça.

A Marinha também contou com uma modernização em sua estrutura, abrindo mão de diversas tradições em sua estrutura burocrática para se adaptar à realidade do século 20.

Novos ares na mentalidade do Brasil

Segundo Frederico Tomé, a mentalidade brasileira foi bastante afetada pela guerra, ao proporcionar ao Brasil uma possibilidade de alcançar o que buscava desde a proclamação da República: a inserção do Brasil no mundo. “O Brasil era uma colônia muito isolada de Portugal, e também pouco se vendeu no período do Império. Desde a proclamação da República que se tentava romper esse isolamento e abrir o Brasil ao mundo”.

A tentativa de se mostrar ao mundo como um ator importante frente às outras nações acelerou bastante com a 2ª Guerra Mundial. Os brasileiros passaram a ter uma melhor percepção do papel do Brasil no mundo enquanto líderes regionais, quanto às suas possibilidades econômicas e culturais. “Surgiu no Brasil uma mentalidade de se perceber no mundo”, afirma o historiador. “A guerra mostrou que nós éramos capazes de sair da nossa bolha e se encaixar na política mundial. Ela favoreceu a autoestima do brasileiro”.

Por Lucas Neiva

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Post Author: Lucas Neiva

Lucas Neiva

2 thoughts on “73 anos de paz: confira as consequências no Brasil da 2ª Guerra Mundial

  • Luciano Villalba Neto

    (8 de maio de 2019 - 21:23)

    “A guerra revelou a inviabilidade do regime que se mantinha por aqui”. Com o fim da guerra, os militares forçaram a renúncia do presidente Getúlio Vargas, o que resultou na abertura política que durou de 1945 até 1964. As demandas e contingências da guerra envolveram politicamente diversos setores da economia e da sociedade brasileira, aumentando a exigência por uma democratização conforme o Brasil ficava mais envolvido com o conflito”.

    A abertura política se deu com a indicação do ministro do STF José Linhares, e a posterior disputa à Presidência da República entre dois militares, o general Eurico Gaspar Dutra (PSD/PTB), o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) e Yedo Fiúza (PCB). Detalhe importante da que foi a considerada a primeira eleição realmente democrática, inclusive com a participação das mulheres votando pela primeira vez para escolher um Presidente. Outro detalhe foi que o vice-presidente só foi eleito pouco tempo depois após a promulgação da Constituição de 1946.

    O período de 1945/1964 é rico também para a Saúde Pública. Aos poucos, o País saía da centralização de Vargas, uma semente para o Sistema Único de Saúde que viraria lei na Constituição de 1988… mas foi a mudança foi extirpada com a queda de Jango e o golpe militar de 1964. A Saúde Pública pode ser estudada no livro “Saúde e Democracia. História e Perspectivas do SUS”, organizado por Nísia Trindade Lima.

    Parabéns, Lucas! Parabéns, Prof. Luiz Cláudio Ferreira! Parabéns, AgenCEUB!
    Tenho profundo carinho por essa agência de notícias, onde aprendi muito. Sucesso!
    Forte abraço.
    Luciano Villalba Neto

    • Agencia de Noticias Uniceub

      (10 de maio de 2019 - 19:39)

      Obrigado pelos comentários, amigo

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